Por Felipe Gesteira

Era um dia bom para sair de casa vestindo a camisa do Flamengo. Justamente aquela camisa que ganhara de presente de um amigo de infância, que tenho como irmão, autografada pelo Maestro Júnior, um dos maiores de todos os tempos. Também era dia de final do Mundial de Clubes, hoje estranhamente chamado de Intercontinental, já que agora existe uma Copa do Mundo de clubes, reconhecida como ‘novo’ Mundial.
Mas a final deste Mundial, que seria disputada contra o todo poderoso Paris Saint-Germain, tinha peso de maior torneio do mundo, tanto quanto fora aquele vencido pela geração de Zico, em 1981, e celebrado até hoje, visto que é o único do Rubro-Negro.
Por não ser torcedor do Flamengo — afastado da tensão de quem sofria com a iminência da final —, logo após sair de casa esqueci que estava vestido com o manto sagrado do time, em dia de decisão. Durou pouco, somente o percurso da porta até a calçada para receber meu primeiro cumprimento. Veio de um desconhecido, do outro lado da rua, impossível de ser reconhecido devido à minha pouca visão para longe. ‘Apertei’ os olhos para tentar decifrar, não reconheci, mas percebi que os acenos eram efusivos, em tom de vibração. Devolvi à altura, já consciente do motivo, como se também torcedor fosse, pois travestido estava.
Minutos depois, entro no uber. A primeira puxada de conversa do motorista é sobre o jogo. Lá vou eu contar minha história, que nem sou flamenguista, mas simpatizo. Sim, porque quando o Flamengo ganha, quase metade da cidade acorda feliz. Isso reverbera no clima, feito uma amenidade social pairando no ar. Futebol, como disse ao cordial motorista, é fato social, e nenhum outro assunto no Brasil agrega tantas pessoas, de universos, gêneros, classes sociais e gerações absolutamente distintas.
Seria um dia cheio. A consulta com meu menino mais velho, marcada para a tarde, precisou ser antecipada de última hora para a manhã. Isso mexeu com meu planejamento, pois teria que cumprir todas as tarefas da manhã no meu trabalho em poucas horas. Ainda atrasamos 8 minutos — o trânsito de João Pessoa não está favorável —, e fomos atendidos com o carinho e a atenção de sempre. Ao final da consulta, meio que com um sorriso tímido, o médico admitiu ter mudado os atendimentos de turno para assistir à final.
Mais tarde, enquanto rolava a partida, precisei resolver uma questão burocrática em um cartório. Gol do Flamengo, e todos os presentes levantaram-se de suas cadeiras, fossem flamenguistas ou não. Depois, nos pênaltis, estava do lado de fora e me dei conta de que o Flamengo havia perdido, pelo tempo passado desde o fim da prorrogação, somado ao silêncio fúnebre. Era mesmo um enterro. Morria ali a esperança do segundo e tão sonhado título mundial.
A final do Mundial mostrou o quanto o Flamengo é gigante. Nenhum outro time teria parado o país inteiro, quase num clima de Copa do Mundo. Serviu também para mostrar que essa geração comandada por Filipe Luís não deve nada àquela de Jorge Jesus, que perdeu o Mundial para um Liverpool impecável. As distâncias entre o campeão da Libertadores e o campeão europeu estavam menores neste ano. Desta vez o Flamengo também não ficou com o título, mas não perdeu a partida no tempo regulamentar.
Da mesma forma, a nova derrota de um time brasileiro em um Mundial serve também para ressaltar as conquistas daqueles que venceram grandes times europeus: O Santos de Pelé; o Flamengo, de Zico, Júnior e cia.; O São Paulo por duas vezes sob o comando de Telê Santana e uma com o time que tinha o goleiro Rogério Ceni em sua melhor fase de todas.
Lamento que não tenha sido desta vez o bi do Flamengo. Apesar de não ter vencido o Mundial, continua, hoje, sendo o maior time do Brasil.
Artigo publicado originalmente na edição de 19.12.2025 do jornal A União.